quarta-feira, 30 de junho de 2010

Quero ser redicula.


Então eu estava lá, me culpando por anos de palavras tortas, passos em falso, descuidos, enganos. Nome trocado. Escorregão no shopping. Sobrancelha mal feita. Ato falho. Comida no dente. Unha sem esmalte. Momento constrangedor. E cenas e cenas e cenas me entupindo a cabeça com o mais cruel e sincero adjetivo: imperfeito. Pois eu precisava largar no chão aquelas malas de expectativa, aquelas imensas bolsas de autocrítica e ouvir a verdade impronunciável. Eu não podia ser perfeita. E que - veja só - de resto, eu podia tudo. Quando se tem leveza a gente vai a qualquer lugar. Mas não tem vento que carregue quem consigo traz âncoras e mais âncoras insustentáveis. Decidi: queria ser leve. Queria ser imperfeita. E ridícula! Eu queria me permitir ser extremamente ridícula!

Contanto que não seja perfeito, eu quero tudo. Quero sair de casa sem pentear o cabelo quando bem entender, quero os esmaltes mais extravagantes, as roupas menos apropriadas, quero os sapatos mais estranhos e um all star sujo e descuidado. Quero misturar tudo, quero esquecer as obrigações, as convenções, essas idéias quadradas que espetam a cabeça, quero rir escandalosamente sempre que achar graça. Fazer careta em fotografia, qualquer ângulo, qualquer posição, quero ter a liberdade de ficar terrivelmente feia na foto da identidade (e em muitas outras). Quero errar a porta, errar a mão, o português, a letra, errar a receita do bolo, eu quero errar! E quero esquecer a etiqueta. Dizer tudo, e fazer tudo, e dançar com movimentos desajeitados, descoordenados, sem direção, de olhos fechados, no meio da pista. Eu quero cantar alto, desafinado como só eu sei, sem pensar que o vizinho vai ouvir. Talvez até no karaokê, com voz aguda no microfone que denuncia ao mundo a minha total falta de amarras. Quero tropeçar naquele degrau infeliz que eu nunca enxergo, comer macarronada sem me preocupar se o molho suja minha bochecha, admitir que não entendi e perguntar de novo ao invés de sorrir pra não parecer surda. Eu não quero mais parecer nada. E que pareça tudo, pois vou ser de tudo, mas que as aparências se restrinjam ao nada.

Vou admitir: estou cansada de ser podada. Eu quero rir abertamente, com todos os meus dentes, com a alma inteira. Mas rir de mim também. Para que eu consiga não me levar tão a sério e deixar de exigir na prática a palavra que só existe em dicionário: perfeição. Que eu não precise ser nada e possa então ser tudo. O que quiser, como quiser, quando quiser. Ao sabor do vento... Livre. Despretensiosa. Ridícula.

Eu, e meus avessos.

2 comentários:

  1. Nossa,é exatamente o que a maioria das pessoas querem,ser rídicula.
    Deixar de ligar tanto pra etiqueta e essas coisas.
    A sociedade exige tanta coisa desnecessária.
    Acho simplesmente nada a ver.

    Adorei o texto.
    Obrigada por me seguir.
    Voltarei aqui.
    beijos.

    ResponderExcluir
  2. Nossa , padrões que são meramente ilusões . nao sigo mais padrões , quero ser ridicula mesmo. amei o texto! *--*

    beijos flor :*

    ResponderExcluir